A inteligência emocional ao serviço da comunicação e da liderança

Helena Ferro Gouveia

Helena Gouveia, Head of Corporate Communications no Grupo Bel, com funções na administração da Agência Lusa e uma vasta experiência na área da comunicação, revelou-nos o segredo para uma vida profissional sólida e diversificada.

Sendo responsável pela comunicação do Grupo Bel há praticamente três anos, que desafios é que este cargo lhe tem imposto?
O Grupo Bel tem crescido e diversificado o seu portfólio de áreas de negócio e, ainda mais, com a entrada no capital social do Global Media Group. Tudo isto implica que a comunicação tenha que ser ainda mais pensada, estrutural e estratégica, o que coloca um conjunto de desafios diários que se prendem com a organização enquanto grupo empresarial. É sempre desafiante comunicar na área da comunicação, porque há a ideia errada de que grupos de comunicação não precisam de uma estratégia quando, na verdade, precisam até mais do que os outros. Estas são áreas sensíveis que mexem com o poder, com o escrutínio do poder político, do poder económico, por isso, importa comunicar bem.

Viveu algum tempo na Alemanha, que mais-valias lhe trouxeram os anos em que experienciou uma vida no estrangeiro?
A Alemanha é a principal economia europeia, um país que tem um peso diplomático muito forte, a voz mais escutada da Europa e ofereceu-me um grande crescimento profissional. De uma forma articulada, trabalhei em projetos que faziam parte de programas quer do Ministério da Cooperação e Desenvolvimento Alemão, quer do Ministério dos Negócios Estrangeiros, com o apoio das Nações Unidas, da União Europeia, portanto, tendo a metodologia de trabalho mais avançada e mais estruturada, acabei por trazer um conjunto de competências e não só conhecimento. É fundamental fazer a leitura do mundo e também dos negócios e da política, mas também ter competências técnicas de análise. Fala-se de traçar objetivos, mas esses objetivos têm de ser mensuráveis, avaliáveis e reajustáveis. Vivenciei muitos momentos históricos que me marcaram e que fazem de mim quer a pessoa, quer a profissional que sou hoje.

Sabemos que esteve recentemente na Polónia. Quer partilhar um pouco sobre essa experiência?
Preocupo-me com as questões de direitos humanos e, por isso, com as questões relacionadas com refugiados.

Já estive em vários campos de refugiados, ao longo da minha vida, quer a nível pessoal, quer a nível profissional. Quando começou a guerra, uma das minhas preocupações foi a dimensão humanitária. Esta é a maior movimentação de pessoas desde a II Guerra Mundial, com cerca de dez milhões de cidadãos deslocados. Organizámos quatro carrinhas que foram carregadas com, sobretudo, medicamentos. Chegados à Polónia, entrámos em contacto com uma organização que tinha já feito a triagem das pessoas e a verificação da legalidade dos documentos, uma vez que íamos transportar menores e tínhamos que ter a certeza de que estavam acompanhados e legais. Tivemos também a preocupação de acompanhar cá essas pessoas no processo de integração. Foi uma viagem muito marcante por dois motivos: pela solidariedade que sentimos por toda a Europa e, embora já estivesse à espera, de experiências, anteriores, pelo sofrimento, principalmente das pessoas que estão a vivenciar traumas de guerra. Nós trouxemos sobretudo, mulheres e crianças. Os homens não podem sair da Ucrânia e isto tem um impacto brutal. Vimos crianças que sentiam falta dos pais, mulheres que ligavam para o marido que lhes mostrava o que era bombardeado e destruído. Era como ver a guerra em direto.

Com base no seu percurso, quais são as premissas que tem em conta no exercício das suas funções e principalmente nos cargos de liderança que ocupa?
A minha principal preocupação são as pessoas, porque as empresas são feitas de pessoas. Preocupo-me com os trabalhadores, com os meus colegas, com as minhas equipas. Procuro estar atenta às necessidades destas pessoas, que acabam por ser clientes internos. Preocupa-me muito a motivação intrínseca, ou seja, o que é que leva as pessoas a querer vestir a camisola de uma organização ou de uma empresa. Liderar não é dar ordem, não é estabelecer apenas objetivos. Muito mais do que levar as pessoas é, conduzir as pessoas. Foco-me muito no uso da inteligência emocional.

Acredita ser importante as mulheres fazerem-se ouvir neste mundo empresarial que, como sabemos, ainda é maioritariamente dominado pelos homens? Qual é a importância do empoderamento feminino na atualidade?
Temos cada vez mais mulheres em cargos de liderança. Uma mulher que tenha voz e que se faça ouvir vai ter um impacto direto sobre a vida das mulheres e meninas, mas também sobre a vida dos homens. O que se pretende é uma sociedade mais justa, mais equilibrada.
Muitas vezes, as mulheres têm uma carreira profissional e, depois, chegam a casa e têm que arrumar o espaço, cuidar dos filhos, entre outras coisas. É importante envolver os homens neste trabalho, neste esforço que é coletivo. Quebrar um pouco os papéis de género para liberar os homens, para lhes dar uma oportunidade de expressar emoções e de serem sensíveis. Estarem com os filhos sem serem censurados socialmente, o que ainda continua a acontecer. É também necessário chegarmos à igualdade salarial, que não existe. Outro problema é o facto de não ser valorizada a palavra da mulher. Há muitas mulheres que, tendo competências e capacidades, muitas vezes, são ainda educadas para não serem assertivas e para não se fazerem ouvir. Há preconceitos sociais que são importantes quebrar, para que as mulheres sejam mais capazes de exprimir as suas necessidades!

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