Mútua dos Pescadores: um futuro ancorado em 80 anos de mutualismo

O presidente do Conselho de Administração da Mútua dos Pescadores, João Delgado faz um balanço dos 80 anos de história da seguradora de todos e para as comunidades.

Celebram, no presente ano, oitenta anos de história enquanto Mútua de Seguros. Como é que surge esta cooperativa e que balanço faz do caminho percorrido até aqui?

Oitenta anos de existência é um longo caminho feito de muitos rostos e muitas mãos. É certo que nem sempre com a mesma visão do mundo, do modelo de desenvolvimento da própria estrutura, do setor da pesca e dos seus profissionais. Recordamos que quando a Mútua dos Pescadores foi criada, Portugal vivia numa profunda ditadura, e o Conselho de Administração que hoje dirige os destinos da Mútua é herdeiro de uma visão democrática, solidária e inclusiva do mundo, pautando-se por uma ação permanente de extrema valorização do setor marítimo e muito particularmente das pescas nacionais e das suas comunidades. Relativamente ao percurso trilhado, refira-se que é um orgulho fazer parte de uma organização que resistiu aos múltiplos “tempos” que a atravessaram, reforçando a sua identidade profundamente humanista, continuando a fazer tudo para defender os seus cooperadores, servindo as suas comunidades por diversas formas e garantindo simultaneamente aos seus trabalhadores condições de trabalho de excelência no setor segurador.

João Delgado, presidente do Conselho de Administração da Mútua dos Pescadores

Definem-se como uma “cooperativa continuando mútua”, o que significa esta expressão?

A expressão referida remete para o modelo de contribuição coletiva de todos os tomadores de seguro, segurados e pessoas seguras, o qual permite que, em caso de infortúnio de algum deles, se possam acionar os mecanismos necessários à sua reparação – o mutualismo -, conjugado com o modelo de governação e atuação cooperativo, que reforça o vínculo da organização com os seus membros (cooperadores), as comunidades e seus interesses. Um modelo de organização em que o capital não é um fim em si mesmo, mas um instrumento de equilíbrio socioeconómico, e em que os valores e princípios da transparência, integridade, democracia, igualdade, solidariedade ou intercooperação, são como imperativos inalienáveis de governação.

Em 2022 assinala-se, inclusive, o ano internacional da pesca artesanal e da aquicultura. Quais são os maiores desafios que estas atividades têm enfrentado?

Os desafios são imensos quando atuamos numa lógica de concentração e monopolização das atividades económicas. As atividades de cariz artesanal, profundamente imbricadas nas comunidades, com os seus profissionais e com as suas nano, micro e pequenas empresas, têm resistido de forma heroica a esta tendência de “liquidação” das economias e atividades de pequena escala. A pesca artesanal, bem como as explorações aquícolas de pequena dimensão, que tanto caracterizam as comunidades do nosso país, sem planos ou apoios concretos, e direcionados em sua defesa, acabarão por “ruir” às mãos da lógica dominante dos grandes monopólios. Às questões de ordem estrutural (enorme carga burocrática, necessária valorização do pescado na produção, escassez de força de trabalho, desvalorização social dos profissionais e falta de apoios sérios às pequenas empresas, urgentes melhoramentos das questões de segurança a bordo e nos portos e barras de todo o país e urgente renovação de alguns segmentos da frota) juntam-se agora questões de ordem conjuntural como a escalada dos preços dos combustíveis, planos de recuperação desajustados e possibilidades de captura aquém das necessidades em certas espécies – fatores que colocam estas atividades numa posição altamente débil, sendo que muitas, sem sombra de dúvidas, cairão nos próximos tempos se nada for feito.

João Delgado, presidente do Conselho de Administração da Mútua dos Pescadores

Sabemos que a Mútua intervém nas comunidades de forma sustentável, não só desenvolvendo a sua missão económica de seguradora, como promovendo e apoiando projetos e iniciativas de carácter ambiental (por exemplo). Sendo que o tema da sustentabilidade está na ordem do dia, esta é uma das vossas maiores preocupações? Nesse sentido, como prevê o futuro da atividade piscatória?

Já nos anos oitenta, a Mútua produzia pequenos documentos com recurso à banda desenhada, que eram distribuídos em todo o país às comunidades piscatórias, alertando para a necessidade de uma pesca sustentável e com futuro. Alertava para as desnecessárias quantidades pescadas e para alturas em que não se deveriam capturar determinadas espécies – ou porque se estava na altura da desova, ou porque os índices de gordura, designadamente da sardinha, não aconselhavam que a mesma se deveria capturar. Logo, a ação da Mútua também foi pioneira em muitas destas matérias. Os pescadores são sempre os principais interessados na preservação daquilo que lhes garante o futuro. Desta forma, o futuro da atividade só poderá ser garantido se estas premissas que enformam uma pesca organizada, rentável e amiga do ambiente, e de racionalidade das capturas, forem asseguradas. No entanto, nada disto pode ser assegurado sem lógicas de mercado que garantam justiça e equidade na distribuição dos rendimentos e uma informação permanente sobre o estado dos recursos e dos principais bancos e zonas de pesca – aqui requerem-se alterações de fundo ao funcionamento do mercado e um maior investimento na investigação e valorização dos seus trabalhadores, designadamente a comunidade científica.

A Mútua esteve presente na 52.ª edição da Nauticampo. Apresente um balanço da vossa presença e da importância deste evento para a Mútua. (pôr em caixa tendo em conta que este evento já passou)

A Mútua dos Pescadores é uma organização do seu tempo e está atenta às transformações que vão ocorrendo nas comunidades costeiras. Se hoje nos assumimos como a seguradora do mar foi porque soubemos ir ao encontro das novas atividades marítimas que foram surgindo, quer de lazer, como a náutica de recreio, quer de outras atividades profissionais, como a marítimo-turística.

A Nauticampo representa, para a Mútua, esse novo lugar que vimos assumindo desde a viragem do milénio, como a seguradora que protege todos os que vivem e amam o mar, e de todas as comunidades da borda d’água, também das barragens e dos rios. Esta Feira é única no País, com uma dimensão nacional, e ponto de encontro anual, obrigatório, para várias empresas e organizações que atuam nestas atividades, e de um modo em todas as atividades ao ar livre (que têm vindo a crescer). A Nauticampo acaba por expressar, de algum modo, o património comum a todas estas atividades, que é a harmonia entre as pessoas e a natureza, e os valores da sustentabilidade, cada vez mais centrais na vida de todos nós. Marcamos presença desde 2004, e iremos continuar a estar presentes!

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