O contributo feminino na moderna advocacia de negócios

Susana Enes, Fundadora

Susana Enes, sócia fundadora da Enes | Cabral, revela os desafios que enfrentou aquando da abertura da sociedade.

Sabemos que iniciou a sua carreira profissional enquanto consultora fiscal. A que momento da sua vida é que decide enveredar pela advocacia?
Sim, comecei a minha carreira numa consultora fiscal porque nunca me imaginei enquanto advogada.
Tirei o curso de Direito convicta de que queria seguir a carreira de juiz. No entanto, como tinha de esperar dois anos após a licenciatura para me candidatar ao Centro de Estudos Judiciários, decidi ir para uma consultora.
Um dia fui alocada a um projeto multidisciplinar que exigia colaboração com uma equipa de advogados e foi aí que percebi que o mundo da advocacia transacional era bem diferente do modelo tradicional com o qual não me identificava.
Foi nesse momento que decidi enveredar pela advocacia dos negócios, pois percebi que poderia desenvolver a vertente jurídica sem perder o contacto com as áreas financeiras e de gestão.

A Enes | Cabral foi fundada em 2021, em plena pandemia. Que desafios tiveram que enfrentar ao abrir uma empresa neste que era (e continua a ser, ainda que com menor dimensão) um momento tão delicado para o país?
O início de um escritório é, por natureza, um projeto exigente e de enormes desafios, pois requer o esforço duplo de alinhar toda a estrutura física, humana e de apoio logístico sem descurar os clientes e o trabalho em curso.
No entanto, por termos dado esse passo em plena pandemia, tivemos de lidar com desafios práticos acrescidos, como não ter lojas abertas para escolhermos o mobiliário de escritório, lidar com prazos de entrega superiores a seis semanas, fazer entrevistas a potenciais colaboradores via ZOOM, esperar mais de um mês por uma ligação à Internet, e muitos outros desafios práticos deste género.
A sorte é que conseguimos reunir uma equipa muito dinâmica, que não tem problemas em “arregaçar as mangas” e com uma postura totalmente hands on. Isso aliviou um pouco a pressão que sentimos nos primeiros meses até conseguirmos ter o escritório minimamente operacional.

Com uma equipa constituída maioritariamente por mulheres, na sua opinião, que caraterísticas é que estas possuem que podem realmente fazer a diferença na liderança das organizações?
As mulheres são mais sociáveis, próximas e parecem ter uma tendência natural para o trabalho em equipa. Em geral, estão mais capacitadas para ter em conta o lado humano das pessoas e gerar empatia. O seu estilo de liderança tende a ser mais inclusivo, procurando promover a participação dos membros da equipa, talvez porque se preocupam menos com questões de poder.
Por isso, num ambiente de trabalho com mais mulheres irá provavelmente encontrar-se maior identidade de grupo, espírito de equipa, entreajuda e motivação. Mas isto sem descurar os resultados, pois as mulheres conseguem, de facto, pensar e agir em diversas frentes e direções ao mesmo tempo, o que representa uma enorme vantagem na hora de tomar decisões.
Por último, creio que as mulheres são mais flexíveis e com uma maior predisposição para a mudança, permitindo análises e respostas mais rápidas e precisas.

Acredita que Portugal está a trilhar o caminho certo no que concerne à paridade de direitos? Sendo a Susana Enes o exemplo perfeito de uma mulher empreendedora e de sucesso, gostaria de deixar algum conselho às mulheres que estão a entrar agora no mundo laboral?
Considero que Portugal está no bom caminho, mas o fator cultural ainda tem um peso muito relevante. Na tradição latina, a mulher continua a ter um papel preponderante no seio da família e na responsabilidade familiar, o que a liberta pouco para a parte profissional. Felizmente, não é o meu caso. Tenho a sorte de ser mãe de três filhos e de ter no meu marido o meu maior apoiante, sem cuja ajuda e disponibilidade para aceitar uma partilha efetiva de responsabilidades familiares teria sido impossível iniciar o projeto da Enes | Cabral. E, agora, tenho a sorte de ter um sócio que admira as qualidades das mulheres e reconhece as vantagens do elemento feminino no sucesso de um negócio. A evolução, na minha opinião, terá sempre de passar pela educação das novas gerações com vista a uma mudança efetiva de mentalidade, para que a mulher possa libertar-se do estigma cultural que lhe foi incutido durante anos de que a escolha por uma carreira implica o abandono das responsabilidades familiares. Isto não é verdade. Não há problema nenhum em ser mulher, ser mãe e ser profissional. Apenas é necessário encontrar um equilíbrio e não viver com a culpa de querermos ter um papel diferente, mais ativo na sociedade, do que aquele que foi assumido pelas gerações passadas.

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